Meu trabalho como educador comunitário é vender sonhos, muitas vezes beira a enganação, porque nem sempre o produto é entregue, sonho é muito perecível, estragando muito rapidamente, além disso, a reposição tem que ser rápida. Como qualquer vendedor sou muito observador, tentando adivinhar necessidades, e não foi diferente com os "clientes” que vos apresento agora; estávamos no calor de dezembro e com a casa cheia, geralmente dezembro é um mês danado para parir molecada, por ser o inicio das férias de verão.
Sou avisado pelo porteiro que um grupo de criança está no final do dia subindo no telhado e tomando banho no nosso tanque, o porteiro não sabe precisar se são crianças do projeto ou não, mesmo com vigilância redobrada a coisa piora e o grupo de banhista aumenta, tornando a água que bebemos insalubre, após uma assembleia descobrimos que os banhistas são da mesma idade de nossa clientela, moram no mesmo lugar, mas como prova de que milagres acontecem, dessa vez eles juram que não são eles e com razão.
Após uma tocaia organizada pela nossa malta, conseguimos pegar os banhistas, não houve surpresa, eram vizinhos, colegas de escola e até parentes de meninos e meninas do Bagunçaço, assustados e cercados pelas crianças do projeto que a essa altura queriam resolver a coisa na porrada e acusavam os banhistas de serem ”alemãos” por se divertirem e ainda deixando a culpa para eles, mas eu sei que aquilo era só inveja, aquele tanque era deles, porém sabiam usar sem levantar suspeitas, por fim aqueles amadores estragaram tudo.
Durante o interrogatório, no meu novo papel de delega, percebi que entre uma surra da mãe diante de uma queixa e qualquer outra opção eles ficariam com a segunda alternativa, então rapidamente virei vendedor de sonho novamente e os convidei para uma lavagem de tanque com todas as outras crianças do projeto.
Depois da lavagem do tanque, leia-se festa, todos já eram aliados, e como em poucos dias dali aconteceria nosso festival anual, o Bagun´fest´lata, nossos ex-banhistas de tanque foram convidados a participar desse dia “D” e se transformaram na banda “Som na Lata”. Foi ai que descobrir os irmãos Alexsquia(um de 11 anos e o outro com 13anos), eles dois, Peu, Negão e mais uns seis estavam se cadastrando, e como não somos nenhuma loja de eletrodomésticos, aceitamos como dados cadastrais as informações que o cliente quer nos dá, o principal é ser pobre, negro, criança e tocar lata e eles estavam aptos.
Três meses se passaram e agora estamos na época da escola, novamente vendendo meu sonho aqui e ali observei que os Alexsquia estavam sempre pela rua a qualquer hora, não demorei a descobrir que eles não tinham registro de nascimento, por isso estavam fora da escola, descobrir ainda que moravam só com o pai, o mesmo trabalhava o dia todo, mas só depois de muitas tentativas conseguir encontrar o pai, a essa altura eu já desconfiava de se tratar de uma figura lendária como a maioria dos pais aqui pela periferia.
Se você já assistiu a uma novela mexicana a seqüência da minha narração vai lhe parecer familiar, caso nunca tenha assistido vai achar que eu estou ”viajando”, porem tenho que admitir ser incapaz de fazer um roteiro de novela mexicana, terei que empobrecer a obra e até deixar algumas lacunas que nem mesmo o pai não me pareceu capaz de explicar bem.
Ao entrar em trabalho de parto a mãe dos Alexsquia deu entrada na maternidade sem documentos, foi declarada Chirleidalva Silva por uma vizinha que a levou ao hospital, pouco mais um ano depois voltou lá para parir o segundo Alexsquia, e foi mais uma vez registrada pelo mesmo nome, agora mãe de dois meninos e já perto de parir o terceiro filho, foi no interior onde morava tirar uma segunda via de sua certidão de nascimento, pois queria tirar os documentos ; carteira de trabalho e titulo de eleitor entre outros, assim foi ao cartório, junto com o pai das crianças que se chama Roberto Alexandria e levou uma garrafa de cachaça para o tabelião, pois sem isso ele não achava os livros de registro e ainda de mau humor dizia que a pessoa não era registrada ali, só ao chegar em Salvador que ela se deu conta que o registro era de uma tal de Chirley Alexsquia, era fácil de entender, com a grande fila que enfrentou ela deveria ter sido a trigésima a presentear o tabelião com uma caninha.
Sem dinheiro para voltar ao interior fez todos os documentos com o novo nome e agora não pode registra os dois filhos que no documento da maternidade constava como mãe Chirleidalva e não Chirley, porem no nascimento da filhinha já deu entrada no hospital com o novo nome, o tabelião não só a casou com o parceiro na certidão de nascimento, lhe deu um novo nome abreviado, como melhorou o sobrenome do parceiro, na verdade ela se tornou uma nova mulher, hoje não vive mais com o parceiro e também não é mãe dos filhos que pariu e “euzinho” estou na luta para conseguir os registros de nascimento e conseqüentemente a entrada dos traquinas irmãos Alexsquia na escola, os tirando da inexistência, ”puta que pariu viu! (by Joselito Crispim)
Se não conhecesse o trabalho Joselito (o Pim), acharia sensacionalista, porém a certeza do homem que sou hoje e do projeto educacional que tenho para os meus filhos vem de uma fonte muito valiosa, os Assis, no entanto você transpira tudo o que existe de melhor, de dignidade, personalidade na família. Desejo muito boa sorte nesse mais novo projeto que Deus te abençoe. Rildo Borges.
ResponderExcluirOi meu irmão, obrigado, acesse sempre vai ter novidades aqui.
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